sexta-feira, 1 de maio de 2009

“Escola de São Paulo” de estudos de comunicação

Sobre a Escola de São Paulo de estudos de comunicação



Glória Kreinz NJR
Sediada na Escola de Comunicações e Artes da USP, a Escola de São Paulo de estudos de comunicação esteve vinculada ao NTC – Cento de Estudos e Pesquisas em Comunicação, Cultura e Tecnologia e ao FiloCom – Núcleo de Estudos Filosóficos da Comunicação. Seus membros reuniram-se primeiramente em 1989, logo após o encerramento do ciclo “Psicanálise da Comunicação”, em quatro módulos, que rendeu a obra A construção social da loucura (Paulus, 2003), durou até 1992. Foi o momento em que o discurso pós-moderno avançava na Academia, e a comunicação, em vista das mudanças tecnológicas e diante da falência das ideologias e da “crise de paradigmas” que havia se instalado nas ciências humanas, exigia uma nova teoria. Ainda não existia um núcleo de pesquisa, apenas pesquisadores associados ao Projeto. Começaram a ser ministrados os primeiros dos 23 cursos de pós-graduação com o título “Nova Teoria da Comunicação”. Os colaboradores desta época foram Wilson Roberto Ferreira Vieira, Jair Marcatti Jr., Liv Sovik, Fernando Barone, Maria Christina Daniels e Arim Soares do Bem. As principais obras do período foram A sociedade Frankenstein (1991), Televisão (Scipione, 1994), Quem manipula quem (Vozes, 1986).
Ciro Marcondes FilhoO teórico idealizador da Escola de São Paulo
Dois fatos marcaram essa época e o início do Projeto “Nova Teoria da Comunicação”. O primeiro, a constatação surgida em pequenos grupos de debates da época, de que o novo surge da troca informal entre membros de um grupo teórico de discussão. São os insights que posteriormente irão revolucionar a teoria e instaurar o novo, realizar a comunicação. Neste encontro livre, espontâneo e criativo de cabeças pensantes nasce efetivamente a ciência. O segundo, exemplificado na tese de Arim Soares do Bem sobre a televisão e a empregada doméstica (ECA-USP), seguindo uma idéia antes esboçada por Dieter Prokop, demonstrou-se que seria possível estudar o fenômeno da comunicação no exato momento em que ela ocorria (a razão que comanda o estudo da comunicação opera no “durante”).A segunda fase, de 1992 a 1998, foi o período da criação do NTC – Centro de Estudos e Pesquisas em Novas Tecnologias, Comunicação e Cultura, de sua editora, da rede nacional de colaboradores, e de sua revista Atrator estranho, que inovou a discussão das tecnologias comunicacionais pelo país afora. Foi um período preparatório à Nova Teoria, em que os 37 volumes publicados da revista, resultados de 45 encontros de debates, assim como a obra coletiva Pensar-Pulsar (NTC, 1996), e os demais volumes Cenários do Novo Mundo (NTC, 1998), Vivências eletrônicas (NTC, 1998) e Super-Ciber, a sociedade místico-tecnológica do século XXI (Ática, 1997), ampliaram o debate e introduziram novos temas e achados diversos, resultantes de intensivo trabalho de debates, publicações e trocas nacionais e internacionais de proposições teóricas e intelectuais. Participaram desta fase da Nova Teoria, como membros e colaboradores do NTC, Rose Rocha, Beltrina Corte, Solange Wajnman, Eugênio Rondini Trivinho, Mayra Rodrigues Gomes, Vani Kenski, Denise Conceição, Rodrigo Assunção e Marta Catunda.
Entre 1998 e o ano 2000, a Escola de São Paulo de estudos de comunicação continuou a operar, contando com o ingresso das pesquisadoras Danielle Naves de Oliveira, Tarcyanie Cajueiro Santos e Ana Célia Mantinez Guarnieri. Em Grenoble, o coordenador avançou os estudos e as investigações, produzindo a obra Viagem na irrealidade da comunicação (Grenoble, 2000), que deu origem ao primeiro volume, ainda provisório, da Trilogia “Nova Teoria da Comunicação”, que sairia na primeira década no novo século.
A terceira fase começa em 2000, com a criação do FiloCom e a orientação do Núcleo para a apresentação efetiva da Nova Teoria. Desta nova fase fizeram parte as obras O espelho e a máscara. O enigma da comunicação e o caminho do meio (Discurso, 2002), Da arte de envenenar dinossauros e outros ensaios mediáticos (2003), O escavador de silêncios, formas de construir e desconstruir a comunicação (Paulus, 2004), Até que ponto, de fato, nos comunicamos (Paulus, 2004) e, mais recentemente, Para entender a comunicação. Contatos antecipados com a Nova Teoria (Paulus, 2008). Participaram ativamente neste período os seguintes colaboradores Elenildes Dantas, Marco Toledo de Assis Bastos, Eliany Machado Salvatierra, Maria Helena Charro, Cristina Pontes Bonfiglioli, Ana Elisa Antunes Viviani, Paulo Masella, Rafael Elias Teixeira, Paulo da Silva Quadros, Pe. Valdir Castro. Naiara Raggiotti fez o trabalho de revisão da obra Da arte de envenenar dinossauros e a obra foi, por isso, a ela dedicada. Mauro Celso Destácio, do Núcleo José Reis, foi assíduo participante dos cursos e das discussões. Neste período mais recente, a Escola de São Paulo conta com novos colaboradores, recém-ingressos na equipe: Ana Paula de Morais Teixeira, Karenine M. R. Cunha, Cristina Valéria Flausino, Eliana Costa Simões e Claudenir Módulo.
Membros efetivos e permanentes de todas as fases da equipe foram José Alberto Sheik Pereira e eu, Glória Kreinz.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Estado de S. Paulo
sexta-feira, 3 de abril de 2009, 15:54


Morre Crodowaldo Pavan, pioneiro da genética no Brasil
Pavan tinha 89 anos; foi professor da USP e da Unicamp,
e pesquisou os efeitos da radiação nos genes
Herton Escobar e Alexandre Gonçalves, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Morreu nesta sexta-feira, 2, aos 89 anos, o geneticista Crodowaldo Pavan, uma das figuras mais importantes da ciência brasileira. Nascido em Campinas e formado pela Universidade de São Paulo (USP), ele foi um dos fundadores da genética no País, formou dezenas de pesquisadores no Brasil e nos Estados Unidos, publicou trabalhos de repercussão internacional e liderou algumas das instituições científicas mais importantes do País.

“Ele era um grande líder, daqueles que não se encontra mais hoje em dia”, disse a geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, que foi aluna de Pavan na graduação. “A história do Pavan se confunde com a história da genética no Brasil; é impossível separar uma coisa da outra”, disse outro notório ex-aluno, o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O professor imortal, que nunca fugia de uma discussão - ao contrário, fazia questão de iniciar muitas delas -, morreu no início da tarde de ontem, no Hospital Universitário da USP. Ele estava internado desde o dia 26, quando se sentiu mal. Na madrugada do dia 27, sofreu um enfarte e seu quadro clínico deteriorou-se, até uma falência de órgãos. Ele tinha câncer, mas não ficou claro se isso teve influência na morte.

Pavan foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre 1981 e 1986, quando, entre outras coisas, liderou uma campanha para incluir a autonomia universitária e o apoio à ciência e à tecnologia no texto da Constituição de 1988. Também foi uma voz importante na criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), em 1985. “Ele foi uma liderança crucial em momentos importantíssimos da ciência no Brasil”, disse ao Estado o atual presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp.

Entre 1981 e 1984, Pavan foi diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre 1986 e 1990, presidiu o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do MCT que financia a maior parte das pesquisas no País. Entrou dizendo que ia multiplicar o orçamento e o número de bolsas, que passou de 10 mil para quase 50 mil. “O Pavan era um figura notável, que marcava presença em todos os lugares por que passava”, disse o chefe de gabinete do CNPq, Felizardo Penalva, também ex-aluno dele na pós-graduação do Departamento de Genética da USP - que, aliás, foi criado por Pavan.

Para Mara Hutz, presidente da Sociedade Brasileira de Genética (SBG) e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Pavan colocou o Brasil no mapa da genética no mundo. “Sempre foi uma pessoa muito participativa que viveu intensamente a política científica brasileira”, aponta Mara.
Na década de 40, Pavan pesquisou ao lado do renomado biólogo Theodore Dobzhansky, na Universidade Columbia. Nas décadas de 60 e 70, foi pesquisador da divisão de biologia do Oak Ridge National Laboratory e virou professor vitalício de genética da Universidade do Texas. “Ele poderia ter ficado nos EUA, mas preferiu voltar para ajudar no desenvolvimento do Brasil”, disse Penalva.

Carlos Menck, vice-presidente da SBG e livre-docente do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, assistiu aulas de Pavan durante a graduação na década de 70. “Eram altamente estimulantes. Queria que as pessoas se dedicassem à ciência por gosto.” No ano passado, Menck, Pavan e outros professores participaram de uma conversa com alunos sobre as perspectivas da biologia. “Pavan falou durante uma hora e meia”, conta Menck. “E dizia com alegria: ‘Tive o privilégio de receber um salário para me divertir’.”

CROMOSSOMOS

A principal contribuição científica de Pavan foi baseada no estudo das larvas de uma mosca chamada Rhynchosciara angelae. Suas pesquisas revelaram um processo chamado amplificação gênica de cromossomos politênicos (gigantes), pelo qual partes dos cromossosmos “inflam” por causa da duplicação de trechos de DNA. Sua especialidade era genética de populações e celular.

Tão marcante quanto a produção científica era a personalidade forte de Pavan. Para o colega e ex-aluno Salzano, ela poderia ser resumida em três palavras: simplicidade, espontaneidade e veemência. As duas últimas referem-se à maneira como Pavan sempre se fazia ouvir em todos os eventos de que participava. “Jamais estive em uma conferência com o Pavan que ele não pedisse a palavra ao microfone”, disse o médico Eduardo Krieger, ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências.

O geneticista Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra-se bem das intervenções de Pavan, que criticava abertamente os projetos de sequenciamento genômico no Brasil. “Esse era o Pavan, nunca de meias palavras. Mesmo quando estava errado, ele era uma presença sempre estimulante.”

Herton Escobar escreveu no Estadão:


O Estado de S.Paulo
Sábado, 04 de Abril de 2009


Morre Crodowaldo Pavan, um pioneiro da genética no Brasil
Biólogo liderou importantes instituições científicas e formou gerações de pesquisadores

Herton Escobar

Morreu ontem, aos 89 anos, o geneticista Crodowaldo Pavan, uma das figuras mais importantes da ciência brasileira. Nascido em Campinas e formado pela Universidade de São Paulo (USP), ele foi um dos fundadores da genética no País, formou dezenas de pesquisadores no Brasil e nos Estados Unidos, publicou trabalhos de repercussão internacional e liderou algumas das instituições científicas mais importantes do País."Ele era um grande líder, daqueles que não se encontra mais hoje em dia", disse a geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, que foi aluna de Pavan na graduação. "A história do Pavan se confunde com a história da genética no Brasil; é impossível separar uma coisa da outra", disse outro notório ex-aluno, o geneticista Francisco Salzano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.O professor imortal, que nunca fugia de uma discussão - ao contrário, fazia questão de iniciar muitas delas -, morreu no início da tarde de ontem, no Hospital Universitário da USP. Ele estava internado desde o dia 26, quando se sentiu mal. Na madrugada do dia 27, sofreu um enfarte e seu quadro clínico deteriorou-se, até uma falência de órgãos. Ele tinha câncer, mas não ficou claro se isso teve influência na morte.Pavan foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) entre 1981 e 1986, quando, entre outras coisas, liderou uma campanha para incluir a autonomia universitária e o apoio à ciência e à tecnologia no texto da Constituição de 1988. Também foi uma voz importante na criação do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), em 1985. "Ele foi uma liderança crucial em momentos importantíssimos da ciência no Brasil", disse ao Estado o atual presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp.Entre 1981 e 1984, Pavan foi diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Entre 1986 e 1990, presidiu o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão do MCT que financia a maior parte das pesquisas no País. Entrou dizendo que ia multiplicar o orçamento e o número de bolsas, que passou de 10 mil para quase 50 mil. "O Pavan era um figura notável, que marcava presença em todos os lugares por que passava", disse o chefe de gabinete do CNPq, Felizardo Penalva, também ex-aluno dele na pós-graduação do Departamento de Genética da USP - que, aliás, foi criado por Pavan.Na década de 40, Pavan pesquisou ao lado do renomado biólogo Theodore Dobzhansky, na Universidade Columbia. Nas décadas de 60 e 70, foi pesquisador da divisão de biologia do Oak Ridge National Laboratory e virou professor vitalício de genética da Universidade do Texas. "Ele poderia ter ficado nos EUA, mas preferiu voltar para ajudar no desenvolvimento do Brasil", disse Penalva.CROMOSSOMOSA principal contribuição científica de Pavan foi baseada no estudo das larvas de uma mosca chamada Rhynchosciara angelae. Suas pesquisas revelaram um processo chamado amplificação gênica de cromossomos politênicos (gigantes), pelo qual partes dos cromossosmos "inflam" por causa da duplicação de trechos de DNA. Sua especialidade era genética de populações e celular.Tão marcante quanto a produção científica era a personalidade forte de Pavan. Para o colega e ex-aluno Salzano, ela poderia ser resumida em três palavras: simplicidade, espontaneidade e veemência. As duas últimas referem-se à maneira como Pavan sempre se fazia ouvir em todos os eventos de que participava. "Jamais estive em uma conferência com o Pavan que ele não pedisse a palavra ao microfone", disse o médico Eduardo Krieger, ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências.O geneticista Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, lembra-se bem das intervenções de Pavan, que criticava abertamente os projetos de sequenciamento genômico no Brasil. "Esse era o Pavan, nunca de meias palavras. Mesmo quando estava errado, ele era uma presença sempre estimulante."